PORSCHE AURORA
Desde o 911 R de Mané Nogueira Pinto, até aos actuais Carrera RSR dos clássicos, muitos foram (e ainda são) os Porsche de competição preparados pelo Mestre Eduardo Santos, na sua Garagem Aurora. Mas entre todos eles, os mais interessantes (e os únicos que foram inscritos com o nome de "Aurora") foram, sem dúvida, os dois protótipos construídos no início dos anos 70 sobre chassis de Porsche 906 e, mais tarde, os dois Porsche 911 de Grupo 5 que animaram o Agrupamento B do CNV entre 1977 e 1981. Propomos aqui aflorar, de modo necessariamente breve, a história destes quatro carros com características únicas em todo o mundo:
As velhas paredes da original Garagem Aurora
sobreviveram ao grande incêndio de 1981 e ainda estão de pé, a poucos metros do
novo espaço (na Rua de Diu, logo ao virar da esquina) que Eduardo Santos passou
a utilizar como oficina. No incêndio faleceu um sobrinho do proprietário e
ficaram destruídos inúmeros carros, entre os quais um dos Porsche Aurora de
Grupo 5 que disputava o campeonato desse ano nas mãos de Rufino Fontes.

Zuffenhausen, 1969: Eduardo Santos, de fato e gravata, observa atentamente a construção de um Targa, no decurso da sua primeira visita ao santuário Porsche. (foto de Carlos Gilbert)
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Os principais carros modificados pela Garagem Aurora:
1- Porsche Aurora 906 "Coupé" #906 130
1969 - Carlos Santos adquiriu o #906 130 via Ben Heiderich, importador espanhol da Porsche, e
utilizou-o durante 4
temporadas consecutivas, tendo assegurado 3 campeonatos antes do #906 130 ser transformado em Aurora - Porsche, em 1972.
(AS)
Em 1971, seguindo as
últimas tendências dos estilistas da Porsche, Carlos Santos mandou decorar o 906
com uma pintura psicadélica inspirada nos Porsche 917 oficiais do ano anterior.
E o artefacto parece ter resultado, porque foi novamente Campeão Nacional de
velocidade!...
(foto: Fernando Pedreira)
Para tentar manter a competitividade do antigo
Porsche, Carlos Santos encarregou o Mestre Eduardo Santos de melhorar as
performances do Carrera 6, transformando e aligeirando a carroçaria, como é bem
visível nesta imagem. Mas a melhoria da performance não terá sido muito sensível
e Carlos Santos pouco utilizou este Porsche Aurora em 1972 e 73, tendo sido
essencialmente pilotado nos CNV desses anos por Miguel Lacerda e Artur Passanha.
Reconvertido em Carrera 6 "de série" foi vendido para os Estados
Unidos da América. (Motor)

Imagem do #906 130 num concurso de elegância em Portland, nos EUA, no início dos anos 80. Alguns anos mais tarde, o carro seria vendido a um coleccionador japonês. (foto: Bill Stephens collection)

O #906 130 esteve algum tempo no Japão até ser adquirido por Bill Stephens (piloto de clássicos e coleccionador de Porsches que esteve na Boavista com um 904 GTS). Na foto vê-se o carro ainda no Japão, no dia em que mudou de mãos. Este 906 está presentemente a ser restaurado nos EUA e em breve deverá alinhar em competições europeias de clássicos. Voltará um dia a correr em Portugal? (foto: Bill Stephens)
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66 - Juan Fernandez
Porsche Aurora 2000 "Spyder" #906 126
Mané Nogueira Pinto e "Janita" Andrade Vilar
adquiriram ao piloto espanhol Alex Soller-Roig (via Ben Heiderich, piloto e
importador espanhol da marca alemã) este Porsche 906 (chassis #906 126) que
utilizaram alternadamente em várias provas nacionais e internacionais (incluindo as províncias
ultramarinas no conceito de "nacional" e Jarama, como internacional) e
em conjunto nas 6 Horas de Vila Real de 1969.
Troféu da Palanca Negra, Luanda, Dezembro de
1969: uma sucessão de erros da organização potenciou o acidente que vitimaria "Janita
" Andrade Villar e mais 13 espectadores que em parte assistiam dentro da própria
pista à partida lançada! O carro ficou muito danificado, ao ponto de nada
se aproveitar da carroçaria de fibra de vidro do 906, totalmente destruída com o
impacto da multidão. (foto:
Flama)
Após o acidente de Andrade Villar, o chassis #906
126 foi adquirido "a meias" por Eduardo Santos e por Carlos Santos. Na Garagem
Aurora, o carro foi sendo (re)construído "a olho", sem planos e sem grandes
meios. Uma das modificações foi a passagem das grandes jantes de 15' (que os 906
herdaram dos velhos 904) para jantes de 13' que devido ao menos diâmetro
permitiam guarda-lamas mais baixos e, por consequência, melhor coeficiente de
penetração aerodinâmica. Para tal foi preciso fazer novos braços de suspensão e
novos cubos (já com aperto central) de modo a permitir a utilização das novas
rodas. Como explicaria mais tarde o Mestre Eduardo a Ricardo
Santos Carvalho, (o carro) Ia-se fazendo aos fins de semana; com madeira, com
chapa, barro, tudo. Tirava-se o molde e pronto. A carroçaria terá sido
inspirada na dos Chevron B-19 e B-21 que vinham regularmente correr em Portugal.
Este "Aurora Spyder" foi quase sempre alugado a Robert Giannone,
embora Álvaro Parente e Carlos Santos também tenham experimentado esta
singular versão de 906.
(foto: Volante, col.Rui Queirós)
Depois de alguns problemas aerodinâmicos iniciais
terem sido resolvidos "com Giannone, num dia de vento no Autódromo, começo a
ver a frente a subir, parecia que queria voar..." confessaria Eduardo Santos
a Ricardo Santos Carvalho quase 25 anos depois. Para resolver o problema
"fizemos umas paletas com umas chapas de matrícula em alumínio e o carro
equilibrou..." De volta ao Porto e convenientemente revisto, o Porsche
Aurora "Spyder" acabou por entrar nos eixos e foi sempre melhorando as suas
performances até conseguir tempos francamente bons, mesmo em relacção aos Lola
T-292 e GRD S-73. Na sua versão final, nas épocas de 1975/76, o carro receberia um
grande "aileron" traseiro e dois pequenos "spoilers" dianteiros
que são visíveis nesta imagem que mostra o Porsche Aurora #906 126, após ter
sido retirado das competições.
(Jornal
dos Clássicos)

Mais tarde, o carro recuperou a forma de Carrera 6 e actualmente corre em provas de clássicos pela mão do seu proprietário, o piloto austríaco Armin Zumbotel, curiosamente mantendo o esquema cromático da época em que o carro pertencia ao duo Andrade Villar e Nogueira Pinto. Na imagem vemos o carro no Estoril Historic Festival de 2004, onde obteve a "pole" da corrida dos GTC 65 + GTC-TC 76. Se restassem dúvidas sobre a veracidade deste #906 126, podemos adiantar que em 2005, numa corrida disputada em Hockenheim, o Mestre Eduardo reconheceu nesse "normalíssimo" Carrera 6 os carburadores e outros detalhes por si modificados, três décadas antes, para criar o Aurora Spyder... (foto: RG)
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3- PORSCHE AURORA RSR / 77 HB-62-34
Em 1977, Eduardo Santos construiu este
Porsche 911 de Grupo 5 a partir do chassis de um Targa a que foi soldada uma
capota de coupé e acrescentado um motor 2,8(?) "made in Aurora".
Esta é uma das primeiras fotos conhecidas do carro, ainda longe da forma
definitiva, e quase certamente feita quando da apresentação do Team ARBO. Esta
foto ilustrava a capa do regulamento do Rali ARBO 1977.
(colecção Rui Queirós)
O mesmo carro, já com a forma definitiva da época
de 1977, numa das rampas do CNV em que participou.
Propriedade da garagem Aurora, o carro foi
cedido nesse ano a Clemente Ribeiro da Silva que conseguiu alguns bons
resultados aos seus comandos.
(Automundo)
Em 1978, o mesmo carro foi
melhorado tanto a nível de mecânica como de carroçaria, que passou a ser
idêntica às dos Porsche 935. Com o apoio dos Texteis Lopes Correia e decorado
com os seus famosos cobertores, este Porsche Aurora venceu logo a prova de
estreia, com Joaquim Moutinho ao volante, em Vila do Conde 78. Nos dois anos
seguintes dominaria o CNV nas mãos de António Barros.
(Automundo)
Este Porsche Aurora RSR de Grupo 5 pesava
1015 kg e era o mais pesado dos Porsche da época e dispunha originalmente de um
motor 3 litros com injecção e cerca de 320/330 cv que utilizou em 1979. Depois,
possivelmente nas
primeira provas de 1980, poderá ter surgido um motor 3.2 feito na Aurora,
detalhe que na época terá passado despercebido. Em Vila Real de 1980 -precisamente no dia desta foto- o Porsche estreou um novo motor 3.5 "Meznarie"
parcialmente montado em Paris pelo Mestre Eduardo (com uma
potência situada entre os 360 e 380 cv) que veio a criar uma mini-crise entre a
Garagem Aurora e a ProLoCo (patrocinador de Moutinho) e uma corrida ao armamento
entre os pilotos da frente do Agrupamento B. No final do ano, Barros seria
campeão, e em 1981, de novo com um motor 3 litros, este 911 seria utilizado por
Rufino Fontes (pintado de amarelo e com o patrocínio da Maconde) até ter sido
destruído no incêndio da Garagem Aurora.
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4- PORSCHE AURORA RSR / 80
Três dos
quatro Porsche de Grupo 5 que correram em Portugal em 1979-81 (falta o Kremer de
Jorge Petiz). Na foto, o da esquerda é o Aurora RSR de Barros, o do meio é o "Almeras"
de Robert Giannone (também assistido na garagem Aurora) e, por fim, o Aurora de
Moutinho. Este novo Porsche também possuía um motor de 3 litros, mas na versão
de carburadores e apenas cerca de 295 cv. No entanto, esta última criação do
mestre Eduardo Santos pesava menos 105 do que o carro alugado a António Barros
(segundo o próprio António Barros, o carro de Moutinho pesaria menos 195 kg do
que o seu, para depois ser convenientemente lastrado de modo a correr perto do
peso mínimo autorizado de 900 kg) e, pelo menos teoricamente, tinha uma melhor
distribuição de pesos. Além disso, sendo mais leve travaria certamente melhor do
que os outros 911 Grupo 5. De construção artesanal, o "aileron"
aparentemente inspirado no dos
935/77 oficiais, era feito em madeira!
(Automundo)
A partir de Vila Real de 1980, este Porsche Aurora
alugado a Joaquim Moutinho/Miura-Ciprac, recebeu um motor 3.3 de carburadores
(304 cv) . Mais tarde, a partir da Rampa do Caramulo de 81, receberia um sistema
de injecção electrónica (322 cv) e em Vila real de 81 estreou um motor 3.5
(possivelmente o antigo Meznarie de Barros/80) que segundo o próprio piloto
explodiria à 13ª volta, devido a um problema de circulação de óleo. Como
esse motor 3.5 nunca foi ao banco de ensaios, nunca foi possível determinar a
verdadeira potência que dispunha.
(Foto: Automundo.
Potências indicadas numa entrevista a Joaquim Moutinho, no Jornal Motor)
Após o incêndio da Aurora e da destruição do carro
normalmente alugado a Rufino Fontes/Maconde, João Anjos (director da equipa
Miura Ciprac) entendeu que os
objectivos da sua equipa estavam alcançados com o título de
Moutinho e em conjunto com o piloto, foi decidido ceder o Porsche Aurora, para
que Rufino Fontes pudesse acabar a temporada e cumprir os compromissos assumidos
com o patrocinador.
(RG)
Nota: devido à variedade de nomes porque estes dois Porsche Aurora Grupo 5 eram referidos nas listas de inscritos e nos média especializados da época, optámos por referir particularmente ambos os carros como Porsche Aurora RSR / 77 e 80. Quanto aos protótipos, a designação da época também ia variando de prova em prova, e se o "coupé" aparecia como Porsche 906, Porsche Aurora 906, Porsche Aurora 2000, o "Spyder" surgia como Porsche Aurora 2000 ou Porsche 2000. Se alguém nos puder esclarecer quanto à designação verdadeira de cada um destes carros (se é que havia uma designação oficial...) , agradecíamos desde já a atenção.
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Actualidade
Mestre Eduardo Santos, em 2003
Mestre Eduardo a tratar pessoalmente das últimas
afinações do Porsche Carrera RSR de Carlos Rodrigues, antes da última prova da
carreira do piloto, pelo menos numa base regular e continuada de participações. Rodrigues utilizou Porsches 911 preparados na Garagem
Aurora desde 1982.
Eduardo Santos entrevistado por Carlos Gilbert
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Texto: RG com JMF
sportscar_portugal@hotmail.com